Ensaio sobre aquilo em que mais penso
Ensaio 5
O erro.
E suas emoções.
Na iminência do erro, uma condição para o medo.
No meio do erro, um estado de tolice e derrota.
A percepção de termos errado traz vergonha e remorso.
Ou não?
Vamos analisar.
Muita gente, por exemplo Aristóteles, acha que o erro
é um acontecimento mental interessante e valioso.
Na discussão sobre metáforas de sua Retórica
Aristóteles diz que há três tipos de palavras.
As estranhas, as comuns e as metafóricas.
"As palavras estranhas simplesmente nos confundem;
as palavras comuns transmitem o que já sabemos;
mas com metáforas podemos alcançar algo novo e fresco"
(Retórica, 1410b10-3)
No que consiste o frescor da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora faz com que a mente sinta a si mesma
no ato de se enganar.
Ele visualiza a mente seguindo pela superfície plana da língua comum
quando de repente
a superfície se rompe ou se complica.
Surge o inesperado.
Primeiro parece estranho, contraditório ou uma coisa errada.
E então faz sentido.
É neste momento que, segundo Aristóteles,
a mente vira para si mesma e diz:
“É tão verdadeiro, e ainda assim eu me enganei!”
Com os enganos verdadeiros da metáfora, pode-se aprender uma lição.
Não só que as coisas não são o que parecem,
e por isso nos enganamos sobre elas,
mas que também esse engano é valioso.
Aferre-se a isso, diz Aristóteles,
há muito o que ver e sentir por aqui.
As metáforas ensinam a mente
a gostar do erro
e a aprender
com a justaposição do que vem e o que não vem ao caso.
Existe um provérbio chinês que diz:
uma pincelada não faz dois caracteres.
E ainda assim,
é exatamente isso que faz um bom engano.
Aqui vai um exemplo.
É um fragmento de um antigo poema grego
que contém um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2+2=4.
Álcaman fragmento 20:
[?] fez três estações, verão
e inverno e a terceira, outono,
e a quarta, primavera, quando
tudo floresce mas de comer o bastante não há.
Álcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Ora, Esparta era um lugar pobre
e é pouco provável
que Álcman levasse uma vida opulenta ou saciada.
Este fato é o pano de fundo de suas observações
que levam à fome.
A fome sempre
parece um engano.
Álcman nos faz sentir esse engano
com ele
através do emprego eficaz de um erro de cálculo.
Para um espartano pobre cuja
despensa está vazia
ao fim do inverno –
a primavera chega, enfim,
como uma reflexão tardia da economia natural,
quarto elemento de uma série de três,
tornando instável sua aritmética.
E encavalgando os seus versos.
O poema de Álcman se interrompe a meio do caminho de um pé iâmbico
sem explicar
de onde a primavera veio
ou por que os números não nos ajudam
a melhor controlar o real
Gosto de três coisas no poema de Álcman.
A primeira, ele é pequeno,
leve, e mais que perfeitamente econômico.
A segunda, parece sugerir tons como o verde-claro sem nunca os nomear.
A terceira é que ele consegue pôr em jogo grandes questões metafísicas (como Quem fez o mundo) sem análises patentes. Vocês viram que o verbo "fez" no primeiro verso
não tem sujeito: [?]
É muito incomum em grego um verbo sem sujeito; na verdade, é um erro de gramática. Os filólogos rigorosos lhes dirão que esse erro é apenas um acidente da transmissão, que o poema tal como nos chegou
é certamente um fragmento de um texto maior, e que Álcman, muito provavelmente, nomeou, sim, o agente da criação nos versos que precedem estes que temos.
Pois é bem possível.
Mas vocês bem sabem que o objetivo maior da filologia
é reduzir todo prazer textual
a um acidente histórico.
E fico desconfortável quando qualquer pessoa afirma saber exatamente o que um poeta quis dizer.
Então deixemos o ponto de interrogação
no começo do poema
e admiremos a coragem de Álcman de encarar o que há entre os colchetes.
A quarta coisa de que eu gosto
no poema de Álcman
é a impressão que ele passa
de ter deixado a verdade escapar sem querer.
Tantos poetas aspiram a esse tom de lucidez desprevenida mas poucos a alcançam com tal simplicidade.
É claro que sua simplicidade é falsa.
Não tem nada de simples ali, Álcman
é um inventor exímio
ou o que Aristóteles chamaria de "imitador"
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o nome genérico que Aristóteles dá aos enganos verdadeiros da poesia.
O que eu gosto nesse termo
é a facilidade com que ele aceita
que aquilo a que nos prestamos quando fazemos poemas é
o erro,
a criação obstinada do erro,
as deliberadas difusão e complicação de enganos,
a partir das quais poderá surgir
o inesperado.
Assim um poeta como Álcman põe de lado medo, ansiedade, vergonha, remorso e tantas outras emoções bestas associadas ao cometimento de enganos
para trazer o quê da questão.
O quê da questão para os humanos é a imperfeição.
Álcman quebra as regras da aritmética, compromete a gramática e bagunça a métrica de seu verso para nos enredar nessa questão. No final do poema, o fato permanece, e é provável que a fome de Álcman também.
Mas algo mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois ao fazer com que elas se enganassem,
Álcman aperfeiçoou algo.
Na verdade, fez
algo mais do que aperfeiçoar.
E com uma só pincelada.
CARSON, Anne. Sobre aquilo em que mais penso: ensaios. Tradução de Sofia Nestrovski. São Paulo: Editora 34, 2023.